Amputações no trabalho: o Paraná é o 3º estado do país, e quase metade envolve máquina
Equipe técnica LineSafe · CREA-PR 77007 · Publicado em
O Paraná registrou 5.556 amputações em acidentes de trabalho com CAT entre 2012 e 2024, o terceiro maior número do país, atrás de São Paulo e Minas Gerais. Em 2023 foram 359, quase uma por dia. Em 49,4% dos casos o agente causador foi uma máquina ou uma transmissão mecânica (cálculo nosso com dados do SmartLab). Serra, prensa e correia lideram a lista, e 89% das amputações atingiram braço e mãos.

De onde vêm esses números?
Do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, o SmartLab, mantido pelo Ministério Público do Trabalho e pela OIT. O painel usa as Comunicações de Acidente de Trabalho (CAT) do INSS e permite filtrar por estado, ano, natureza da lesão, agente causador, setor e parte do corpo.
Dois cuidados na leitura. Só entra acidente com CAT emitida, então o número real é maior. E 2024 ainda parece incompleto na base, por isso as comparações entre anos param em 2023.
O Paraná é mesmo o 3º estado em amputações?
Em número absoluto, é. De 2012 a 2024, o ranking ficou assim:
- São Paulo: 18.607 amputações
- Minas Gerais: 6.127
- Paraná: 5.556
- Rio Grande do Sul: 5.538
- Santa Catarina: 4.545
O Rio Grande do Sul ficou só 18 casos atrás. E é contagem de casos, não taxa por trabalhador: estados com mais empregos industriais tendem a registrar mais. Mesmo assim, o Brasil teve 62.372 amputações com CAT no período, e quase 9% delas foram no Paraná (cálculo nosso com dados do SmartLab).
Quantas amputações o Paraná registra por ano?
- 2012 a 2014: 671, 603 e 530
- 2015 a 2017: 506, 383 e 293
- 2018 a 2020: 224, 429 e 400
- 2021 a 2023: 453, 432 e 359
A série caiu até 2018 e voltou a subir em 2019. O painel não explica o motivo, e não vamos inventar um. O que dá para dizer é que, em 2023, o estado ainda registrou 359 amputações, quase uma por dia (cálculo nosso com dados do SmartLab).
Quanto disso envolve máquina?
Somamos as categorias de agente causador que são máquina ou transmissão mecânica: máquina, serra, prensa, correia, engrenagem, polia, guilhotina, plaina, torno e fresa, misturador, máquina de embalar e outras, 22 ao todo. No Paraná, elas respondem por 2.747 das 5.556 amputações, ou 49,4% (cálculo nosso com dados do SmartLab). No Brasil, a mesma soma dá 46,2%.
A conta é conservadora. Ficou de fora a categoria genérica "ferramenta, máquina, equipamento, veículo", com mais 392 amputações no estado, porque ela mistura máquina com veículo e ferramenta.
Quais máquinas mais amputam no Paraná?
- Serra: 611 amputações
- Máquina, sem especificar o tipo: 602
- Prensa: 299
- Correia: 186
- Engrenagem: 104
- Tesoura, guilhotina e máquina de cortar: 99
- Plaina e tupia: 98
- Furadeira, torno e fresa: 94
A serra lidera com folga. Escrevemos sobre o que a NR-12 cobra dela no artigo sobre serra fita e serra circular. Para as outras, temos artigos sobre prensas, dobradeira e guilhotina e torno mecânico. Correia e engrenagem aparecem em quase toda máquina: são as transmissões de força, que a norma manda fechar por todos os lados (NR-12, item 12.5.9).
Em que setores isso acontece?
Pelo setor da empresa informado na CAT, os que mais registraram amputações no Paraná de 2012 a 2024 foram:
- Fabricação de móveis de madeira: 254
- Desdobramento de madeira (serrarias): 241
- Abate de suínos, aves e outros pequenos animais: 180
- Transporte rodoviário de carga: 177
- Construção de edifícios: 162
- Chapas de madeira compensada, prensada e aglomerada: 106
Outras 382 CATs vieram sem setor preenchido. A cadeia da madeira aparece três vezes entre os seis primeiros, e a serra explica boa parte: são 99 amputações por serra nas moveleiras e 72 nas serrarias. No abate de aves e suínos, o agente mais registrado é máquina sem tipo especificado (63 dos 180 casos), seguido da serra (16).
Que parte do corpo é atingida?
Braço e mãos, em 4.962 das 5.556 amputações no Paraná, ou 89% (cálculo nosso com dados do SmartLab). Pernas e pés vêm muito atrás, com 266.
O dado conta onde está o problema. A mão entra na zona de perigo para alimentar a peça, tirar um cavaco, destravar um material ou limpar com a máquina girando. É exatamente aí que a proteção precisa estar.
O que fazer para a sua fábrica não entrar nessa estatística?
O ponto de partida é a regra central da NR-12:
“As zonas de perigo das máquinas e equipamentos devem possuir sistemas de segurança, caracterizados por proteções fixas, proteções móveis e dispositivos de segurança interligados, que resguardem proteção à saúde e à integridade física dos trabalhadores.”
NR-12, item 12.5.1
Na prática, isso começa por listar onde a mão pode chegar em cada máquina. É o que faz a apreciação de riscos: identifica as zonas de perigo, define a proteção de cada uma e a categoria do circuito de segurança. Onde o acesso é raro, entra proteção fixa, que só sai com ferramenta. Onde o operador precisa entrar mais de uma vez por turno, proteção móvel com intertravamento, que para a máquina quando abre (NR-12, item 12.5.6).
Um erro comum é achar que botão de emergência resolve. A norma diz que a parada de emergência é medida auxiliar e não substitui a proteção (NR-12, item 12.6.3, alínea b). Máquina antiga também entra: a NR-12 vale para máquinas novas e usadas (item 12.1.2).
É esse o trabalho da adequação de máquinas NR-12: proteções projetadas para o jeito que a máquina é operada, intertravamentos, emergência e painel de segurança, com laudo e ART no final. Explicamos o que o laudo precisa ter no artigo sobre laudo NR-12.
